Bruno Levy Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Mãe negra e filho albino revelam os laços familiares com albinismo

Alagoas possui 68 comunidades quilombolas com certificação oficial dada pela Fundação Cultural Palmares, necessária para salvaguardar à cultura, à preservação dos saberes e à valorização da história dessas populações, além de possuírem acesso aos direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal.

Porém, um quilombo se destaca pelo alto número de pessoas albinas vivendo na região: a comunidade Filús, localizada na área rural do município de Santana do Mundaú.

Quilombo é o nome dado no Brasil aos locais de refúgio dos escravos fugidos de engenhos e fazendas durante o período colonial e imperial. Nesses lugares, os escravos passavam a viver em liberdade, criando novas relações sociais.

O mais conhecido é Zumbi dos Palmares, quilombola ícone da resistência negra à escravidão, o qual liderou o Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas no Brasil Colonial, em Alagoas.

Seus ancestrais da comunidade Filús apresentam um detalhe interessante: a partir da relação entre parentes, vem a falta de pigmentação da pele. Todos são familiares: primos, sobrinhos e tios. Como consequência, este tipo de relacionamento provoca o albinismo.

Enquanto que o distúrbio genético é considerado uma condição rara, sendo um caso a cada 17 mil pessoas, a comunidade Filús vai na contramão dos dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). São 10 albinos para uma população de 40 famílias.

Laços

A matriarca Terezinha Isabel da Silva, de 63 anos, sobrevive da plantação e da venda do seu material, assim como o restante das famílias da comunidade. Negra, com uma postura firme e forte, Terezinha diz que tem orgulho de onde nasceu. “A gente planta uma coisinha pra comer, né? Uma macaxeira, um abacate. Nasci, me criei aqui e pretendo morrer aqui. Tenho muito orgulho de onde eu vim”, disse.

Filha de pais negros, Terezinha possui uma irmã albina. Cleonice Izabel da Silva, de 45 anos, diz que nunca foi tratada de forma diferente pelos pais. “Apesar da minha cor ser diferente, sempre fui bem tratada pelos meus pais. Eles eram primos e é por isso que nasci albina”, explicou.

Tratamento

O conhecimento dessa condição partiu por meio do médico especialista em cirurgia plástica e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Fernando Gomes, o qual realizou diversas visitas à comunidade para acompanhamento médico que visa prevenir e monitorar possíveis doenças provocadas em decorrência do albinismo como câncer de pele e queimaduras.

Segundo o médico, ele conheceu a comunidade após um convite realizado por um colega de trabalho da Ufal e, a partir deste dia, começaram a acompanhar mais de perto a situação dos moradores e a pensar em formas de tratamento médico eficazes.

“Levamos todos albinos da comunidade para o Hospital Universitário para que eles recebessem o devido tratamento. De forma coordenada, estamos atuando na comunidade e fazendo as pesquisas de genética, de oftalmologia e de pele”, relatou Fernando Gomes que trabalha há 12 anos nos cuidados aos quilombolas.

O principal problema parte do trabalho da roça, onde os moradores ficam expostos aos raios solares sem protetor solar e sem a roupagem adequada. “Devido a essa exposição, os tumores nascem de forma mais rápida, sendo necessária uma intervenção. Porém, de uns anos para cá houve uma mudança de comportamento da comunidade, onde eles começaram a perceber o quanto é importante se proteger”.

A doença do Carcinoma Espinocelular foi a responsável pela morte de dois albinos que viviam na Filús, revelou o médico. Ela é o segundo tipo mais comum de câncer de pele, sendo responsável por cerca de 20% dos tumores cutâneos não melanoma. Frequentemente, o carcinoma espinocelular cresce nas áreas mais expostas ao sol, como couro cabeludo e orelha, sendo mais predominante em pacientes a partir da sexta ou sétima década de vida.

Prevenção

A mais velha das albinas, Deusa da Silva, de 62 anos, já teve problemas de pele devido à exposição ao sol. “Quem trabalha na roça tem que estar debaixo do sol. Eu usava chapéu, camisa, mas mesmo assim tive um tumor na pele. Graças a Deus hoje estou bem”, relatou Deusa.

De acordo a enfermeira chefe da Secretaria Municipal de Saúde de Santana do Mundaú, Maria das Dores, o atendimento médico aos moradores do Filús é realizado diariamente em um posto de saúde próximo à região. Outras duas comunidades quilombolas do município, Jussara e Mariana, também recebem auxílio médico do posto.

“Eles têm todo atendimento de atenção básica como vacinas, citologia, testes rápidos, pré-natal e consultas médicas. Atividades sobre saúde, de controle dos vetores, esquistossomoses e entre outros também são realizados”, falou a enfermeira.

Além disso, Maria ainda informou que periodicamente são doados protetores solares e visitas de dermatologistas para a prevenção de possíveis doenças de pele.

Prioridade

A Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh) trabalha diretamente com as comunidades quilombolas dando apoio logístico e de acompanhamento nas doações de cestas básicas, consultas médicas e no alinhamento técnico para a criação de uma cooperativa.

Os quilombolas fazem parte dos chamados povos tradicionais que, de acordo com o decreto federal 6.040 de 2007, são aqueles que possuem modo de viver ligado ao meio ambiente em que vivem, e uma cultura específica, como os caboclos, caiçaras, extrativistas, indígenas, jangadeiros, pescadores, quilombolas, ribeirinhos, ciganos, e seringueiros.

Para a secretária de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, Maria Silva, é uma prioridade ao mesmo tempo um grande desafio contribuir para a inclusão desses povos, a exemplo dos quilombolas, nas políticas públicas estaduais, sejam elas relacionadas aos direitos humanos, à pessoa com deficiência e o enfrentamento à violência doméstica e ao feminicídio. “Por ter essa compreensão, incluímos as comunidades quilombolas na nossa agenda de rodas de conversa, palestras, seminários sobre empoderamento feminino, direitos, lei Maria da Penha e outros temas de interesse”, explica a secretária.

“A Semudh como secretaria de articulação cumpre esse papel. Nós ouvimos as demandas das comunidades e as encaminhamos. Em razão das circunstâncias que o albinismo impõe, a comunidade Filús demanda uma atenção especial com cuidados médicos diferenciados, por exemplo”, conta  o superintendente de Políticas para os Direitos Humanos e a Igualdade Racial, Mirabel Alves.

Cooperativa

Dentre estas ações da Semudh, a criação do estatuto da Cooperativa de Produção de Agricultures Quilombolas (Coopaquim), em dezembro do ano passado, é considerada uma conquista para o povo Filús, já que são conhecidos pela enorme produção de laranja.

“Os povos tradicionais quilombolas de Santana do Mundaú estão sempre em nosso radar. Nós fazemos este acompanhamento em busca de uma melhor qualidade de vida dessas pessoas guerreiras. O albinismo é um caso que demanda bastante cuidado, atenção e preocupação, principalmente em um estado quente como o nosso, necessita de ações integradas de várias áreas. A Semudh tem esse caráter de articulação, no qual buscamos levar ainda mais melhorias na vida destes quilombolas”, finaliza a secretária Maria Silva.