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“O Brasil não é para principiante”. Não raro escuto ou leio essa sentença por aí.

Em todos os tempos, durante nossa História, enfrentamos crises, batalhas, guerras culturais e disputas por poder envolvendo todo tipo de ideologia secular, a iniciar pelo positivismo que fundou a República.

Sem contar que as particularidades dessa nação nos leva a estranhamentos diante dos fatos históricos, como o golpe que rendeu a República – em 1889 – ter como figura principal alguém que sequer republicano era: Marechal Deodoro. O milico se opôs a D. Pedro II por conta dos interesses pessoais e acabou abrindo portas para uma versão tiranete-tupiniquim que foi Floriano Peixoto, que hoje é cantado em verso e prosa.

De lá até os dias atuais, muitos fatos a refletir. Por exemplo: ao final da década de 1930, mantivemos um franco comércio com a Alemanha nazista em função da admiração de Getúlio Vargas pelos regimes autoritários que tomavam conta da Europa. Tanto que, nesse período, tivemos nossa versão de medo ao comunismo com o polêmico Plano Cohen.

A culpa de uma revolução comunista frustrada já caiu nas costas de uma menina de 18 anos, a garota Elza, que foi executada pelo grupo de Luís Carlos Prestes. Este – por sua vez – ganhou o epíteto de Cavaleiro da Esperança.

Posteriormente, temos o sonho de Brasília: uma capital que centralizou o poder e traduziu em concreto o pacto federativo que o país tem até hoje, onde a distribuição de recursos é decidida nas mãos de poucos, bem como a centralização de ações. Assim, municípios e Estados ficam dependentes administrativa e politicamente. Contra essa centralização, homens como Aureliano Cândido Tavares Bastos já se insurgiam em 1861, ainda no Império.

Eram abolicionistas, visionários, descentralizadores, libertadores que foram jogados no esquecimento.

Seguindo na História, a promessa de JK – com seu desenvolvimentismo – nos levou ao aumento dos gastos públicos de forma surpreendente. Se na época imperial, esse não chegava a duas casas decimais, hoje compromete o PIB de uma forma assustadora. Esse desenvolvimentismo estatista – com um Estado cada vez mais interventor – nos seguiu pelo tempo. No período militar, foram fundadas 274 estatais. Tivemos crescimento econômico, é verdade. Todavia, tivemos cada vez mais centralização.

Como bem pontou o autor de Os Donos do Poder – Raymundo Faoro – nossa democracia virou burocrática. O poder que emanava do povo era contra ele exercido por meio de um estamento que envolviam políticos e outros autores, como os metacapitalistas das empreiteiras. Liberdade econômica e outras liberdades? Foi virando um sonho nesse país.

Na reabertura democrática, após regime militar, o estamento foi tomado por ideias revolucionárias que se dividiam por seus matizes, da social-democracia a uma esquerda mais radical. Assim, após a Era desastrosa da presidência do atual senador Fernando Collor de Mello (PROS), tivemos a dicotomia entre o PSDB e o PT, com os tucanos aceitando o papel de uma “direita” (que nem direita era) que a esquerda precisava.

As ideias conservadoras e liberais foram mortas nesse país ou demonizadas. Não raro, ser liberal ou conservador era ser chamado de fascista, como se o termo fosse um mero xingamento. Aqueles que defendiam a redução do Estado, a descentralização do poder e a revisão desse pacto federativo, eram tachados de autoritários, quando na realidade o tal “fascismo” significa tudo pelo Estado, para o Estado e com o Estado.

Uma inversão de conceito que matou a direita e criou uma democracia de tonalidades de um único lado, com algumas leves pitadas de liberdade econômica e liberalismo quando era necessário, como foi com as privatizações da era tucana.

Somente no início dos anos 2010 é que uma direita começa a ressurgir timidamente, revisitando ideias, resgatando nomes históricos do pensamento político brasileiro que haviam sido largados ao esquecimento, como Antonio Paim, Meira Penna, Roberto Campos, João Camilo de Oliveira Torres e tantos outros. De qualquer forma, fazer de determinadas ideias “espantalhos” é algo que ainda ronda na grande mídia tomada pelo dito progressismo.

Por isso, caro leitor (a), ouso dizer que a única forma de compreensão de nosso presente para além das análises que estão sendo feitas por aí em páginas de jornais, só é possível plenamente quando conhecemos de fato o nosso passado. O Brasil possui heranças profundas. E, nesse quesito, heróis foram esquecidos, personagens históricos foram deturpados para se tornarem mitos dentro de um pensamento dominante de uma época, e biografias tiveram seus defeitos amenizados para que heroísmos fossem forjados.

Um exemplo é o caso de Tiradentes: esse foi moldado como um “Cristo” pela República inicial. Antonio Conselheiro virou um louco e poucos sabem que ele possui uma obra teológica rica, publicada recentemente pela É Realizações. Ou seja: não era tão louco assim.

Até o cangaço passou por uma revisão revolucionária para Lampião caber – alguns livros fizeram isso – no discurso da luta de classes, quando os cangaceiros se aliavam a determinadas elites para mapear os locais que iriam saquear ou não.

As brigas entre jesuítas e a Coroa – que também produziu reflexões interessantes sobre nossa formação e como tratamos nossas origens – foram apagadas ou deturpadas. José de Anchieta – um grande pedagogo – deixou de ser referência, por exemplo.

Além disso, nas escolas, passamos a aprender a nossa história da forma mais superficial possível e quem ousa questionar a historiografia oficial das apostilas resumidas passa a ser massacrado pela “inteligência orgânica”, como ocorreu recentemente com o documentário 1964 do Brasil Paralelo.

Ali, um documentário honesto que mostra o golpe que de fato houve na chamada contrarrevolução militar, afirma sim que houve a ditadura e com a influência do positivismo de Auguste Comte e sua visão de “sociedade perfeita”, mas do outro lado: a ameaça do comunismo com guerrilheiros maoistas, stalinistas, marxistas-leninistas etc. O documentário traz o contexto.

Entender o Brasil atual é compreender o passado, pois nos últimos anos – a era PT – trouxe muito dessas ideias revolucionárias para dentro do estamento burocrático e com peças – de um mecanismo internacional – que não podem ser esquecidas: como o Foro de São Paulo e o plano de esquerdização das Américas Latinas.

A corrupção já existente no estamento foi elevada a um sistema de manutenção de poder. O BNDES virou cofre da revolução para republiquetas como Venezuela e Cuba em função dos interesses ideológicos. Tudo isso já era a crônica de uma morte anunciada, pois o aumento dos gastos públicos, a matriz econômica heterodoxa e as migalhas ao povo fazia parte do plano.

A organização criminosa cooptou os fisiológicos cujo compromisso era o próprio umbigo e não o país. Muitos desses formam o Centrão de hoje ou são figuras como os Renans Calheiros da vida que não hipotecam o apoio ao PT por acaso. No atual governo – do presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) – também há muito do positivismo militarista tecnocrata que merece críticas e vigilância. Aliás, se há governo, é preciso que haja os vigilantes.

Há ainda um governo – e Bolsonaro precisa se preocupar com isso – que alimenta crises menores, que fala de rompantes e sem medir as consequências, que pode prejudicar o que há de positivo, como a quebra do sistema estamentário, as reformas estruturantes visando maior liberdade econômica e a preocupação em resgatar uma moralidade objetiva, que se funda nos valores ocidentais que preservam todas as liberdades. Há erros no governo? Sim. Se a direita se deixar tomar por uma paixão política, fechará seus olhos para a crítica que pode ser construtiva e se enxergará como “iluminados pelo povo”.

A direita não pode se tornar o mal que combate.

Por essa razão, reforço nesse texto a necessidade de conhecer o Brasil com mais profundidade para entender como chegamos até aqui. Por sorte, há muitas obras surgindo nesse país – sobretudo por meio de editoras menores, como A Armada, Vide Editorial, É Realizações, Centro Dom Bosco e outras – que visam o resgate histórico. Não se trata sequer de revisionismo.

Indico ao leitor (a) conhecer Laterna na Proa de Roberto Campos, por exemplo. Momentos Decisivos da História do Brasil de Antonio Paim é outra obra que merece ser lida. Procurem por Brasil: Uma Biografia de Lilian Schwarcz e por Boris Fausto (mesmo estes sendo de um pensamento político oposto ao meu, merecem ser lidos).

Todavia, entre todas essas leituras, destaco uma surpresa maravilhosa – ao menos para mim – feita pela Câmara de Deputados, por meio de sua biblioteca e livraria, que é o lançamento da coleção João Camilo de Oliveira Torres. Torres é um dos maiores pensadores desse país e está tendo seus textos resgatados pelo parlamento. O melhor: os preços são extremamente acessíveis.

Camilo de Oliveira Torres consegue contar a História do Brasil com reflexões fundamentais aos momentos em que vivemos, desde o Império aos tempos mais recentes da República, como por exemplo, em A Ideia Revolucionária no Brasil, quando mostra a mudança de pensamento e o estatismo centralizador por várias fases vividas na nação.

O leitor (a) vai se deparar com pontos que apenas inicio aqui nesse texto. Camilo de Oliveira Torres traz a reflexão sobre o positivismo em território brasileiro com O Positivismo no Brasil, depois mostra como as relações de poder se deram em O Presidencialismo no Brasil. Há ainda o surpreendente Estratificação Social no Brasil, sem contar com o clássico Democracia Coroada, A Formação do Federalismo no Brasil e Interpretação da Realidade Brasileira.

Pude ler esses livros em edições mais antigas ou por meio dos PDFs. Mas, ainda assim, os adquiri novamente para releituras.

João Camilo de Oliveira Torres fala ao nosso tempo. Nos permite ter acesso a uma visão ampla para analisar melhor os fatos do presente. E um país que verdadeiramente se educa e apreende a História do seu povo se torna uma nação com maior capacidade de decidir quais caminhos quer construir para o futuro. Em tempos atuais – de redes sociais – é muito fácil opinar sobre tudo, mas opiniões não se relativizam. Elas não são iguais.

Como diz Daniel Patrick Moyniham, todos tem direito as suas opiniões, mas não aos seus próprios fatos. E é o respeito aos fatos que diferem a qualidade das análises. Caso contrário, teremos apenas textos histriônicos, cheios de adjetivos e paixões que apenas dialogam com os convertidos dentro de suas ideologias seculares sem ampliarem a discussão e o debate que nosso país precisa.

Como diria o pensador Michael Oakeshott, formaremos apenas pessoas que possuem uma fé política demasiada e sem a dose de ceticismo necessário por não compreenderem que ideias possuem consequências, por não entenderem que nenhuma geração está desligada da geração passada e que essa ligação – como já pontua Edmund Burke, em As Reflexões Sobre a Revolução na França – nos permite pensar sobre erros e conquistas na História. Estamos sempre subindo nos ombros dos gigantes.

O Brasil é maior que um presidente de plantão, é maior que congressistas e maior que uma Brasília centralizadora. O Brasil é um país rico, com um povo de capacidade de empreendedorismo, de iniciativa, de buscar soluções, que – em muitos momentos – só precisa que o Estado atrapalhe menos, que os engenheiros-sociais não fiquem legislando sobre todas as coisas, que respeitem as liberdades individuais e que não façam como a senadora Kátia Abreu, que proferiu uma das piores sentenças já ditas naquele Congresso: que não somos capazes de tomar conta das nossas vidas sozinhos, pois sempre precisamos das babás legisladoras ou do Estado-babá ou empresário.

Esse tipo de político – como Abreu e tantos outros – se utilizam apenas da retórica vagabunda, da vigarice intelectual, enquanto bancam a si mesmos como “pais dos pobres”. O Brasil precisa é de menos Estado e mais liberdade. Precisamos rever nosso pacto federativo, repensar nossa alta carga tributária, resgatar a História e valores, nos guiar pelos grandes e não pelos mesquinhos fisiológicos com seus projetos de manutenção de poder.

O Brasil precisa de uma democracia sadia em que as várias correntes políticas possam expor suas ideias para o país de forma clara, objetiva e sem espantalhos, mas com a verdade. E nessa verdade há o que determinadas ideologias seculares já produziram no mundo, pois todos os atos revolucionários sempre trouxeram consigo as suas guilhotinas, prisões, sangue, perseguição e demonização do adversário. Para entender melhor isso, meus caríssimos (as), nada melhor que a História.

Estou no twitter: @lulavilar