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O jornalista carioca, Marcos Luca Valentim escreve:


"Eu quase fui convencido a seguir a carreira militar. Não queria entrar pro Exército, e foi com essa certeza que segui a obrigatoriedade e me alistei na época. Passei por diversas etapas, afirmando em todas elas que não tinha interesse em servir.
Pois bem.
Quando dei por mim, já estavam raspando meu black, e eu, marchando na moral.Os meses foram passando, e nunca escondi que não via a hora de sair.Alguns também não queriam estar ali.
De qualquer maneira, já que não tinha escolha, resolvi dar meu máximo. 
E ganhei certo respeito dos superiores quando recebi meu diploma como melhor do TAF (Teste de Aptidão Física).
Como podem ver na foto, eu era um filé de borboleta. Mas a corrida me salvou.
Eu era um bom soldado. Prestativo, não reclamava, seguia ordens.
Certa vez, no alojamento dos soldados, o assunto voltou.
- Tu tá doido pra sair, né?
- Nem fala...
- Mas por quê?
- Pô, eu quero estudar... Quero ser militar não.
No dia seguinte, perfilado em forma depois de passar a manhã capinando, o sargento me chamou à frente do pelotão. Achei que eu fosse ser escolhido como o xerife da semana, mas, não.
- Senhores, este soldado aqui quer sair daqui, senhores. Ele quer estudar, senhores. O senhor quer estudar o quê, soldado?
- Jornalismo, senhor.
- Jornalismo, é? Entendi, soldado - e, após breve pausa, sacramentou.
- Soldado, o senhor é preto, soldado! O lugar do senhor é aqui, soldado! O senhor já viu jornalista preto, soldado?
Esse momento ficou na minha cabeça, e aquela certeza toda que eu tinha quando entrei no quartel havia se dissipado num nevoeiro de questionamentos. E se o sargento estivesse certo? Eu era um moleque, sem 1/5 da consciência de hoje. Tentei contar quantos jornalistas negros eu conhecia. Um total de zero.
E isso me afundou.
Mas aí lembrei das vezes em que, quando criança, disse à minha mãe que seria jornalista.
Lembrei do meu pai, negro, pobre, que tinha todas as estatísticas contra ele, e se tornou doutor em Letras. (...) Enfim.
O tempo passou, e eu saí do Exército.Tornei-me jornalista.E agradeço aos meus pais.
Democracia racial é lenda.
Representatividade é tudo.
Lugar de preto é em todo lugar. 
Tem que ser."