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O parto,  conhecido também pela expressão dar à luz, que pode ser traduzida como “trazer a luz o que estava no escuro” é o momento em que o bebê nasce após cerca de 40 semanas de gestação. Sem sombra de dúvidas, esse ato será sempre  um dos momentos mais importantes e marcantes da vida de uma mulher. 

A busca pelo parto humanizado e a participação de doulas neste momento vem crescendo cada vez mais no Estado. Durante muitos anos, as mães optavam ou eram submetidas ao parto cesáreo, mas hoje em dia a busca é pelo parto natural com acompanhamento especializado, desde o início da gestação para que não haja imprevistos. 

Para Fátima Trindade, que é personal trainner, desde o início da gestação a sua espera foi sempre ter um parto normal e descobrir qual a sensação de passar pela mesma situação em que suas avós passaram há anos atrás, no entanto, “ficou muito feliz ao encontrar, em meio ao mundo cesarista, de consultas rápidas, um médico que teve atenção e cuidado comigo e com o bebê, mas essa é a finalidade do parto humanizado”, disse. 

“Na verdade a minha decisão foi de ter um parto normal, eu sempre quis por ser atleta e querer voltar rápido as minhas atividades e também para me ajudar no pós parto. Após a consulta, o Dr. Alberto Sandes, ele me explicou o que era realmente um parto humanizado e como era a forma de trabalho dele. Depois, fui buscando informações e me certificando de que era realmente o que eu queria”, contou a personal. 

“A minha vontade também era a de ter uma boa recuperação e descobrir o que minhas avós e poucas pessoas tinham passado através desse processo que hoje em dia é tão incrível, mas que na verdade, antigamente, era o "possível" natural... enfim fiquei confiante! Apesar de eu ter plano de saúde  e ter buscado informações... Porque se não teria ficado complicado, pois o processo de uma internação, por exemplo, e as coisas como são feitas dentro do hospital já fariam com que eu desistisse”, explicou.

Fátima conta que desde a sua experiência com o parto humanizado, ela passou a recomendar a prática do procedimento natural. “Depois que conseguimos passar por esse processo, queremos apoiar e ajudar a todos, independente se na rede pública ou privada. Mulheres... em meio a esse bombardeio de informações se empoderem! Leiam! Se informem! Eu sempre tive a vontade de ter, mas não basta só querer. Nós nascemos para isso! Manter uma gestação saudável só isso não basta”, justificou. 

A personal trainner disse ainda que, após escolher a prática do parto humanizado, é preciso buscar apoio. Ela buscou participar de  rodas de gestantes, após o convite de uma amiga. Ela conta que só assim ela pôde perceber e entender através de relatos que era capaz. “Fui super acolhida e incentivada. Saí da roda super confiante. Ouvir relatos de mães que como eu sabem que nasceram para isso, para parir! E com respeito!”, relatou.

Trindade revela que a maioria das pessoas ficavam espantadas ao saber que ela queria ter um filho por meio do parto normal e agiam como se isso fosse coisa de outro mundo. “Sabemos que é da nossa natureza. Minha família me apoiou, apesar de no dia todos ficarem preocupados pelo gritos e sofrimento que faz parte do processo. 

“Se fosse preciso voltar atrás, eu faria tudo igual. Teria buscado apoio mais cedo e teria parto humanizado novamente, sem sombra de dúvidas, pois eu só cheguei a conhecer o trabalho das doulas quando já estava com 36 semanas, bem próximo de ter a minha bebê. Mas assim que soube vi que era essencial para me ajudar, a cada encontro eu me sentia mais forte e ciente que era o essencial para me ajudar. Meu esposo, Bruno, se empoderou comigo após as informações recebidas e tudo foi muito decisivo. As doulas foram fundamentais junto com ele para que eu pudesse ter êxito no meu parto”, disse. 

Segundo a mamãe de primeira viagem, durante o seu trabalho de parto que durou 24 horas de dor e cansaço, as doulas e o marido a ajudaram e lhe deixaram tranquila. Além disso, ela revela que após o parto, já com a fase da amamentação e os seios feridos, ela recebeu o apoio diário das doulas para não desistir de tudo. “É muito difícil em meio a exaustão das noites sem dormir e adaptação do bebê a nossa e toda a mudança de vida. Hoje sei a importância de tudo! De todos os profissionais e a minha também de está informada”, completou.

“Sou muita grata às minhas doulas Lili e Milena que conduziram tão bem todo o processo e ao meu esposo que na hora da covardia (sim porque tem essa hora... a hora em que a coluna não aguenta mais... que os ossos estão se dilatando... que estamos exausta sem saber se vamos conseguir...), mas o  médico, as doulas e o marido não me deixaram desistir! Tive um parto normal, sem pontos e com muito amor e carinho”, disse Fátima.

Trindade recomenda a todas as pessoas a buscarem informações, além de se unir a rede de apoio, para que possam entender que são capazes. “Hoje me sinto orgulhosa porque eu me disciplinei nos treinos, na minha alimentação e rompi todos os preconceitos. Me cuidei que o fim e isso faz parte do conjunto”, finalizou. 

Parto x pós parto

Milena Caramori, doula, é mãe do Pedro, que nasceu em 2004 num parto normal violento; do Lucas, que nasceu em 2011 em um parto humanizado hospital e Davi, que nasceu em um parto domiciliar em Maceió em 2013. Além disso, é co-fundadora do grupo Roda Gestante, grupo de apoio à gestação, parto e pós parto que atua em Maceió desde 2012, assim como do grupo Doulas do roda e hoje é "minha doula em Maceió". 

Para Milena, a doula oferece apoio emocional e físico para que a mulher consiga parir, preferencialmente de forma humanizada. Mas pra falar sobre o trabalho da doula é importante contextualizar a doula no sistema obstétrico atual, com taxas altíssimas de cesariana, superando em muito os 15% aceitáveis pela OMS. 

De acordo com a doula, em Maceió, por exemplo, as taxas de cesariana da rede particular ultrapassam os 90% e muitos obstetras têm taxas absurdas de 100% de cesarianas. Isso é possível saber graças a uma resolução da Agência Nacional de Saúde (ANS), que dá a mulher o direito de solicitar essas taxas de cesárea do plano de saúde (por médico ou estabelecimento).

Ela conta que a doula poderia ser uma mãe, sogra, irmã, uma amiga que pudesse oferecer suporte físico e emocional para que a mulher suporte melhor as dores durante o trabalho de parto e tenha uma experiência de parto cercada de respeito, cuidados e carinho. Porém, dentro do sistema obstétrico atual, onde as mulheres são frequentemente enganadas com falsas indicações de cesariana (vide taxas citadas) são submetidas a partos normais violentos, cheios de intervenções desnecessárias a doula entra em cena fazendo um trabalho adicional extremamente importante, oferecendo todo o suporte com informações para que a mulher faça escolhas conscientes, tanto em relação à cesariana, como para admitir e aceitar intervenções (tanto nela quanto no bebê) sabendo de seus riscos e benefícios. 

“A doula vem resgatar também a participação do companheiro e da família no processo de gestação e parto, desmistificando falsas indicações de cesariana e mitos que envolvem a amamentação e promovendo o cuidado  à mulher e ao bebê, orientando para que possam oferecer o melhor suporte possível à mulher durante a gestação, parto e pós-parto”, esclareceu.

Violência no parto

Conforme Caramori, a violência no parto pode ser considerada física ou psicológica. “A cesariana geralmente é vendida como uma cirurgia indolor, prática e controlada. Mas na verdade a cesariana tem riscos de curto, médio e longo prazo e é a principal violência física cometida no sistema obstétrico brasileiro”.

A doula diz que é considerada violência obstétrica quando a  mulher é enganada com falsas indicações de cesárea e a cirurgia acontece de forma indesejada e desnecessária. “Além de representar taxas de mortalidade materna e neonatal superiores em relação ao parto normal,  a cesariana pode causar problemas como acretismo placentário, aderências, problemas em gestações futuras, etc... e a cesariana pode trazer impactos no processo de amamentação, resultando em maior risco de desenvolvimento de uma depressão pós parto”, disse.

“É importante ressaltar que agradecemos a existência da cesariana e a consideramos de extrema importância como alternativa para casos em que realmente sejam necessárias ou em casos em que a mulher, conscientemente, opta pela cirurgia. Outras formas de violência obstétrica são as intervenções desnecessárias ao longo do trabalho de parto e que acrescentam risco ao parto. A dieta zero, ou seja, não permitir que a mulher se alimente e beba água durante o trabalho de parto é uma tortura. A mulher precisa ser hidratada e ter energia para suportar o trabalho de parto”, esclareceu. 

Além disso, Milena contou que a Tricotomia ou raspagem de pêlos, que aumenta o risco de infecção da mulher; enema ou lavagem intestinal, que aumenta o risco de infecção do bebê; ocitocina de rotina, que aumenta o risco de sofrimento fetal; ruptura artificial da bolsa, que aumenta o risco de infecção e de prolapso de cordão; litotomia, ou parir deitada, que aumenta o tempo de expulsivo, aumenta o risco de que a mulher necessite de mais intervenções, aumenta o risco de laceração, aumenta o risco de sofrimento fetal; kristeller, ou pressão no fundo uterino (empurrar a barriga) procedimento condenado pela organização mundial de saúde que pode provocar lacerações internas na mulher, com hemorragia interna da mulher e morte, dano cerebral e morte do bebê; puxo dirigido (mandar a mulher fazer força no expulsivo) que aumenta o risco de sofrimento fetal e exaustão da mulher; episiotomia, o corte no períneo associado ao ponto do marido, que gera uma gama de discussões, foi um corte introduzido na prática obstétrica sem nenhuma evidência de que tem benefícios, mas hoje já existem pesquisas de Melania Amorim, obstetra professora da federal de campina grande, que evidencia que a episiotomia não traz benefícios significativos à mulher e ao bebê, mas traz malefícios. 

Segundo Milena, essas são as principais violências no parto normal. “Porém, que seja, especialmente com falsas indicações de cesárea, o tem ainda a violência verbal e psicológica... a pressão para que a mulher se submeta à cesárea de qualquer forma desencorajamento da mulher para que permaneça esperando o nascimento por parto no normal”, disse.

Caramori recomenda que caso alguém queira obter mais informações a respeito da violência contra a mulher pode entrar em contato com o disk denúncia, por meio do número 180, onde pode ser tirado dúvidas, além de orientar para os procedimentos relativos a denúncias. 

A escolha 

A doula informou que a a maioria das pessoas possuem medo do parto humanizado por não terem conhecimento do que é. “O parto humanizado é o parto realizado com respeito à fisiologia  e ao protagonismo da mulher sobre o próprio corpo, com cuidado na atenção e monitoramento adequado tanto da mulher quanto do bebê. O parto humanizado é o parto mais seguro e a cesariana necessária não deve ser desconsiderada, faz parte do atendimento humanizado. O contrário de parto humanizado é o parto violento, desrespeitoso, negligente”, contou. 

Doulas em Maceió

“Em termos de Brasil, Maceió tem ótimas alternativas de parto. Temos hospitais com salas apropriadas de pré-parto, parto e pós-parto (unimed e santa casa), com alojamento conjunto do bebê. Infelizmente ainda temos hospitais como Arthur Ramos, onde a mulher passa o trabalho de parto em uma enfermaria minúscula com um banheiro sem chuveiro, onde a gestante mal passa na porta, onde a mulher ainda ´é obrigada a parir no centro cirúrgico em litotomia e o bebê ainda é levado para o berçário, alguns andares acima do centro cirúrgico onde a mãe fica. A estrutura e preparo de todo o quadro de atendimento é bem importante, mas é importante ressaltar que a estrutura física não faz a menor diferença se o obstetra não está disposto a utilizá-la e o inverso é verdadeiro... Com um obstetra humanizado a mulher pode parir lindamente com respeito sem ter estrutura alguma”, justificou. 

Milena diz que obviamente que a estrutura ajuda, mas não é o essencial. “No SUS a mulher passa o trabalho de parto em enfermaria, não é o ambiente adequado para se passar um trabalho de parto, mas dependendo do profissional é possível ver partos respeitosos, dentro das limitações... Mas a mulher precisa ter sorte de chegar no plantão de um profissional humanizado. Felizmente temos visto avanços e abertura para a humanização por parte de muitos obstetras em Maceió. Em 2012 o cenário era completamente diferente e hoje, em 2019, fico feliz em ver que Maceió avançou”, disse ela. 

Sociedade x parto humanizado

A doula diz que muita gente confunde o parto humanizado com parto natural, normal ou domiciliar. Porém, são procedimentos diferentes. 

“O parto  natural é aquele que acontece sem nenhuma intervenção, zero intervenção: pode acontecer no carro, no ônibus, no corredor do hospital, ou domiciliar, sem assistência alguma, com desrespeito, sem humanização nenhuma. Mas pode também ser um parto com zero intervenção humanizado, o que é o ideal! O parto domiciliar planejado geralmente é natural e humanizado ou seja, sem intervenção, com respeito e cuidado na assistência (monitoramento fetal e materno adequado com,todos os equipamentos e materiais necessários para emergência e possível transferência para hospital  calibrado). A cesariana é sim considerada em parto humanizado, desde que seja realmente necessária. Já o parto normal, hospitalar, geralmente é esse parto cheio de intervenções para apressar o processo de nascimento, mas que podem acrescentar risco ao parto”, explicou Milena.

Conforme Caramori, a maior parte das pessoas não sabem exatamente o que representa o parto humanizado, por isso muita gente o nega, pensando ser arriscado. Mas na verdade o parto humanizado é simplesmente o parto mais seguro para a mulher e o bebê e não existe dificuldade nenhuma nesse entendimento. “Além disso, é o parto recomendado pela organização Mundial de Saúde e pelo Ministério da Saúde, embora o CFM e a FEBRASGO, corporativista, continuem negando as recomendações”, concluiu.

Redução de riscos 

Formada desde 2015, a doula Andrezza Souto deu início à profissão com pequenos atendimentos, até se aperfeiçoar e atuar com frequência em 2016. Ela conta que o parto humanizado é a melhor opção para a gestante e o bebê. 

"Diminuem-se muito os índices de morte materna, neonatal, lacerações, perdas de útero, hemorragias, entre outras coisas. O parto humanizado significa respeitar as escolhas da gestante", explicou. 

Questionada sobre a procura pela prática, Andrezza conta que a busca por essa alternativa tem sido cada vez maior. "As mulheres que tiveram doula comparavam na prática os benefícios", afirmou. 

Segundo a profissional, quando as famílias se sentem perdidas, as doula conseguem mostrar o caminho, aconselhando e apoiando a decisão escolhida. "No parto com a doula, olhamos para a mulher como única e especial. Somos dela! Oferecemos água, alimento, amor, massagens e apoio", contou.

 Projeto de Lei

Durante sessão na Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas  (ALE), no dia 14 de maio, foi aprovado, em primeira votação, o Projeto de Lei (PL) de autoria da deputada Jó Pereira, que garante a presença de doula quando solicitada pela parturiente.

O projeto permite que as gestantes tenham, na rede pública e privada de saúde em Alagoas, a presença da doula durante o trabalho de parto e pós parto.

A deputada justificou, na defesa do PL, que a prática no parto evolui com maior tranquilidade e rapidez e menos complicações, reduzindo o risco de cesáreas, partos instrumentalizados e uso de analgésicos e ocitocina, segundo estudos.

*Estagiárias sob supervisão da editoria.