Foto: Reprodução Web Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Ilustração

A Lei de nº 13.819 , que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, levantou um debate acerca de uma prática que aflige diferentes pessoas em todo o mundo.

Conforme as diretrizes da Lei, fica estabelecido que as escolas, sejam elas públicas ou privadas, notifiquem aos conselhos tutelares toda suspeita ou ocorrência confirmada envolvendo violência autoprovocada.

Já com relação às unidades de saúde, é obrigatório que elas reportem os episódios às autoridades sanitárias. Com essa mudança, o governo federal pretende manter atualizado um sistema nacional de registros detectados em cada estado e município, para que possa dimensionar a incidência de automutilação e suicídio em todo o país.

Os sintomas costumam aparecer durante a adolescência, permanecendo por aproximadamente uma década na maioria dos casos. As pessoas que possuem este transtorno, sentem uma necessidade enorme de auto punição pelos falta de sucesso no dia a dia. Quem se pune faz  isso de maneira escondida e silenciosa.

As maneiras mais recorrentes de automutilação são cortar a própria pele, bater em si mesmo e queimar-se. Na maioria das vezes, as áreas onde são produzidos os ferimentos são os braços, pernas, abdômen e áreas expostas.

A automutilação vem atingindo cada vez mais crianças, jovens e adolescentes que se sentem solitárias, esgotadas emocionalmente e que não se sentem a vontade de desabafar com familiares ou amigos e buscam alívio ao se cortar, vendo na dor um refúgio para que esquecer os sentimentos que lhe deixam aflitos. Julgamentos diários e o desafio constante de tentar não se mutilar acompanham algumas jovens que passam por esse tormento. A reportagem do CadaMinuto ouviu alguns relatos sobre o assunto. 

Esgotamento emocional

De acordo com Joana da Silva (nome fictício), aos 17 anos, devido a um esgotamento emocional, a jovem passou a se automutilar. “Minha meta era que todos os dias eu teria que ‘aliviar’, me machucando”, relatou.

A jovem ainda disse que sentia muita dor psicológica, é que e esse sofrimento não era percebido ou ouvido por ninguém. Segundo Joana, esse era seu “botão de emergência”.

Após os familiares da jovem descobrirem o que ela fazia, Joana começou a fazer terapia com o objetivo de solucionar aquele problema.

Questionada sobre a dificuldade de lidar coma situação e com a reação das pessoas, Joana contou que até hoje é difícil lidar com o problema. “É vergonhoso porque os olhares de 99% das pessoas são de desprezo. E isso gera um sentimento de vergonha de mim mesma”, informou.

Apesar de todas as adversidades, Joana contou que já fazem três meses que ela não se machuca, pois, no fundo, percebeu que o alívio era momentâneo e, quando a adrenalina passava, a dor que sentia antes de se automutilar, voltava pior que antes.

Solidão

Segundo Louise Jéssica (nome fictício), em 2014 ela descobriu que estava com depressão e dependendo do seu estado emocional se cortava uma ou duas vezes por semana. 

Ela relata que devido a depressão se sentia muito sozinha e não achava mais sentido para fazer coisas que antigamente fazia com frequência. 

“Era como se não houvesse mais sentido em sair de casa, passear, estudar. Chegava muitas vezes a pensar em suicídio e eu via na automutilação uma forma de escape para a dor”, explicou Louise. 

Ela revelou que na época apenas a família e alguns amigos íntimos ficaram sabendo do fato. Em seguida, ela chegou a fazer acompanhamento psiquiátrico na Casa de Miguel Couto, além disso, fez tratamento com antidepressivos durante meses, porém, os remédios não surtiram efeitos.
 
“Os remédios que estava tomando me fazia passar mal o tempo todo e eu ficava bastante sonolenta, vivia dormindo, então eu era mais um zumbi do que uma jovem”, disse. 

Louise Jéssica conta que a todo tempo tentava esconder os cortes, para que as pessoas não vissem e não falassem mal dela a respeito do que estava passando, afinal ninguém entenderia. 

“Eu escondia a maior parte dos cortes com roupas longas e casacos de mangas. No início, quando o meu pai viu e comentou com minha mãe trataram a situação com desdém, ignorando a gravidade da situação e dizendo que era besteira e vitimismo meu. Portanto, eu escondia o máximo que conseguia, até que chegou em um momento que não dava mais. Eu pedi ajuda aos meus pais e amigos e eles começaram a levar a sério a doença”, justificou Jéssica.

Jéssica diz que se sentia aliviada ao se cortar e não percebia o que estava fazendo. “Era um alívio momentâneo durante o desespero. Na maioria das vezes em que eu me cortava, eu não me dava conta de que estava fazendo até ter feito, era como se eu estivesse em um surto.Agonizando. E quando tudo passava, eu ficava mal com o que tinha feito a mim mesma e sentia vergonha, por isso fazia o máximo que pudesse para esconder”, finalizou.

Marta Karine (nome fictício), contou que aos 18 anos conheceu alguns amigos que se cortavam e ela não entendia a razão pelo qual eles faziam aquilo, mas se sentiu aliviada quando se cortou pela primeira vez.

“Lembro que era no final de 2018, eu não entendia o que meus amigos se sentiam ao se cortar,mas nesse dia estive tão abalada sentimentalmente que encontrei esse alívio” disse.

Após três anos se auto mutilando em diversas situações, Karine revela que está a cerca de três meses sem se cortar. No entanto, ela diz que sempre que se sente profundamente triste e solitária sente vontade de de cortar. 

Ao ser questionada sobre o porquê de se cortar, Karine fala que ao fazer isso tentava fugir dos sentimentos que se encontrava, além de buscar alívio e um socorro dos sentimentos que a deixava triste. 

“Sentia uma paz momentânea, porque cada vez a vontade de me cortar mais aumentava e foi sendo insuficiente pra me ajudar a fugir dos problemas que me levavam a isso. Mas o sentimento era de um pouco de paz e conforto, que eu não conseguia em nenhum outro lugar”, esclareceu.

Marta diz ainda que nenhum de seus parentes sabem que ela se automutila, e que apenas conseguiu contar a alguns amigos íntimos que perceberam. 

“Fui a psicólogas em busca de ajuda, mas nunca me sentia bem com o método delas, até que encontrei auxílio na Ufal, onde estudo e desde novembro de 2018 faço terapia e me sinto bem acolhida”, desabafou Marta. 

Sobre a opinião das pessoas ao saber que ela se corta, Karine diz que as reações são diversas, desde julgamento a apoio, e se não bem administradas podem ser um motivo a mais para frustração.

Sobre a Lei

A Lei nº 13.819 foi sancionada no dia 26 de abril de 2019, com autoria do ministro da Cidadania, Osmar Terra. A nova medida tem como objetivo diminuir os casos de violência autoprovocada.

Entre as ações sugeridas, o texto propõe a criação de um canal telefônico para atender a pessoas que estejam passando por um quadro de sofrimento psíquico. Os usuários poderão utilizar o serviço de forma gratuita e sigilosa.

Conforme a Lei, a execução das ações será coordenada pelo Ministério da Família e dos Direitos Humanos, por meio do Grupo de Trabalho de Valorização da Vida e Prevenção da Violência Autoprovocada por Crianças, Adolescentes e Jovens, criado especificamente para esse fim.

Segundo dados apurados pela Agência Brasil, somente entre 2007 e 2016, foram registradas, no Brasil, 106.374 mortes por suicídio, de acordo com levantamento do Ministério da Saúde, divulgado em setembro do ano passado. No período analisado, constatou-se um aumento de 16,8% no total de ocorrências. Entre homens, o aumento chegou a 28%.


*Estagiárias sob supervisão da editoria com Agência Brasil