Foto: Arquivo Pessoal Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Padre Márcio Roberto

Uma das mais tradicionais comemorações cristãs, a Páscoa - que significa “passagem” - está relacionada à crucificação, morte e ressureição de Jesus Cristo. E, muito além dos ovos de chocolate e do feriado prolongado, é também considerado um tempo de conversão. Neste Domingo de Páscoa, o CadaMinuto foi em busca de mais explicações sobre o período e ouviu histórias de conversão de quem, buscando respostas para algumas das perguntas que acompanham a humanidade há milhares de anos, mudou a forma de ver a vida.

O padre Marcio Roberto, administrador da paróquia Nossa Senhora da Rosa Mística, explicou à reportagem que a conversão é o primeiro passo para entendermos e vivermos o espírito pascal: “A Páscoa é um sinal de visão futura, do novo céu e da nova terra. Ela converte a mentalidade histórico-materialista do aqui e agora, para aquela do agora e do ainda não. Quem vive uma fé pascal, crendo que Jesus morreu e ressuscitou, vive uma espiritualidade de conversão diária, pois a cada dia buscamos corresponder ao desígnio de Deus, conformando nossa vontade a do Espírito Santo... Daí a Páscoa culminar na celebração de Pentecostes. Pois os discípulos se converteram da atitude tímida e reservada para aquela de coragem e ousadia, sem temerem a própria morte”.

Segundo o pároco, pela escuta da palavra de Deus, encarnado na pessoa de Jesus, mudamos de mentalidade sobre a morte. “A visão da morte agora não é de fim da pessoa humana, mas de ‘transfiguração’ da humanidade a glória e imortalidade pela consciência de que, com Cristo, nos convertemos do estado de pecado para aquele da graça; morremos para os pecados e vivemos segundo a vontade de Deus, como cidadãos do Céu, mesmo ainda peregrinos no mundo”, completou.

Imortalidade

Sobre o significado da Páscoa, o padre destacou que, para a Igreja Católica, é a maior celebração da fé, o memorial da passagem de Jesus Cristo da morte para a vida e é também esperança. “A Páscoa pode ser entendida como passagem da vida mortal para uma vida consagrada na imortalidade. A quaresma nos prepara justamente para revisão da nossa vida marcada pelo pecado e a semana santa nos direciona para a participação do tríduo pascal: noite de quinta, tarde da sexta e noite do sábado, tudo culminando em Jesus Cristo que venceu a morte, ressuscitado, abrindo para nós o dom da imortalidade total do ser humano”.

“A Páscoa para os católicos é a celebração das promessas do ‘dia sem ocaso’, é morrer para o pecado e viver segundo o Espírito de Amor. É a nossa crença que a morte não é o fim. É a nossa crença no novo céu e na nova terra. Mas para entendermos a Paixão de Jesus Cristo na cruz, só compreendendo sua paixão e compaixão pelos pequenos e sofredores. Pois Jesus foi solidário em tudo com o ser humano, menos no pecado. Mas sofreu as consequências do pecado da rejeição e preconceito por ser de Nazaré, por viver o amor de forma concreta e não   fingida... Para viver a vida nova de Cristo é  necessário deixar-se tornar nova criatura”, concluiu.

Questionamentos

A fé move montanhas? Como pode alguém acreditar em um Deus que não se vê? É possível estarmos aqui por acaso, sem uma força maior regendo tudo isso? Esses são alguns dos questionamentos que quase todo mundo já se fez em algum momento. Uma dessas pessoas é o policial militar Lucas Cordeiro, de 23 anos. Como estudioso da ciência da evolução chegou a acreditar que pedir a ajuda de Deus seria uma insanidade.

Ele relata que em sua adolescência cursava Ciências Biológicas na Universidade federal de Alagoas (Ufal), mas destaca que o curso não foi o motivo de seu ateísmo. “Foi lá que passei a me interessar bastante pela ciência, me apaixonei pela Teoria da Evolução, de Charles Darwin, e passei a ler bastante sobre o assunto, de forma que inicialmente desacreditei no criacionismo divino. Minha sede de conhecimento progrediu e embarquei em vários outros livros, um deles: ‘Deus um delírio’, de Richard Dawkins, que foi o pontapé inicial para desacreditar de vez em qualquer divindade e buscar soluções naturais e científicas para os mistérios de nossa natureza. Para mim, a razão estava acima de tudo, e recorrer a Deus era loucura”, contou.

No entanto, ainda cedo, por volta dos 18 anos, o ateísmo do policial “caiu aos pedaços”, segundo palavras dele mesmo. Lucas disse que a mudança começou a acontecer não por pressão dos religiosos (que era imensa), tampouco por influência de alguém, mas por uma prova concreta que Deus lhe deu: “O mais impressionante é que essa prova foi algo bastante pessoal, pessoal o suficiente para que eu não consiga convencer outra pessoa de que Deus existe, ou seja, foi algo direcionado apenas para mim e mais ninguém, e por qual motivo? Simples... Eu pedi em oração... Pois é, um ateu resolveu orar após anos de ateísmo, que Deus se mostrasse para mim”.

Com um novo pensamento e uma nova forma de ver as coisas, o policial afirmou que agora enxerga o mundo com os olhos da fé e percebe Deus e suas ações em todo o lugar, principalmente na sua profissão de policial militar: “Em meu trabalho é bastante perceptível o quanto Deus cuida de nós. É incrível como ele sempre coloca os bons policiais no lugar e na hora certa para evitar que o mal aconteça”.

“Um ateu exige que Deus se manifeste fisicamente através de milagres, mas basta apenas enxergar melhor para perceber que suas obras se dão através das pessoas, sendo impossível crer que tantas coisas são fruto do acaso”, reforçou o policial, acrescentando que, este período de Páscoa “é sinônimo de renascimento, é a lembrança de que Deus não nos abandonará. Se não o enxergamos basta apenas limpar os olhos, ou o coração”, recomendou.

Conversão em etapas

Mais longo e mais tardio, o processo de conversão do jornalista Luis Vilar, 39 anos, ao cristianismo ocorreu em etapas, envolvendo um estudo que durou cerca de quatro anos. “Há pessoas que são agraciadas pelo dom da Graça e outras que são retiradas da lama do pecado quando encontram Deus. Meu caso é o segundo. Era ateu até meados de 2013, quando resolvi estudar muito sobre o Cristianismo, com o intuito de fundamentar ainda mais o meu ateísmo e mostrar onde a Igreja Católica estava errada”, contou, explicando que dividiu os estudos em três etapas: história da religião, teologia e filosofia.

“Foram quatro anos em silêncio sobre o assunto e apenas lendo, fazendo anotações, pesquisando em diversos autores, entre detratores da fé e defensores desta, para então chegar à conclusão de que o Cristianismo era a maior riqueza do mundo ocidental, com efeito direto na evolução deste, seja na construção de uma moralidade objetiva que levava em conta o amor, a misericórdia e a Justiça, seja na mão estendida aos pecadores ou na reconfiguração do mundo, trazendo o conceito do cuidado com quem mais precisa, fundando orfanatos, hospitais, a educação pública etc. Raízes das quais esquecemos ou – por deficiência nas informações que possuímos – não enxergamos. Desfiz os mitos sobre a Idade Média, inclusive com um historiador materialista chamado Jaques Le Goff, e depois veio gente como C.S Lewis, Chesterton, Cristopher Dawson e a biografia dos próprios santos, como Confissões de Agostinho, que inaugurou um novo estilo literário no mundo”, explicou.

O jornalista contou que via a riqueza do Cristianismo e passou a ser um defensor dele, mesmo ainda sem ter Fé. Fé que, segundo ele, não veio em função do estudo: “Isto me fez compreender a importância do crer para ver e não o contrário. A fé veio de uma experiência mística em que, em uma Santa Missa de sétimo dia, onde estava por pura convenção social, compreendi a beleza da Eucaristia e senti a transubstanciação ali presente. Ali, passei a crer e a colocar como missão de vida a defesa de Nosso Senhor Jesus Cristo onde quer que eu esteja, pois é o compromisso eucarístico”.

Luis casou no religioso para poder comungar e relatou que, desde então, são várias as experiências que confirmam sua fé, mesmo nos momentos de tibieza. Ele frisa que, todavia, a conversão é um processo diário, pois não deixamos de ter a natureza humana propensa ao pecado. “A conversão diária é mirar na imitação do Cristo que morreu por nós, louvoando-o, sentindo esse amor crescer. O amor que conhecemos em parte – como diz Paulo – mas que veremos face a face se entendermos que viver é Cristo e morrer por Ele é lucro.. O Cristianismo não é autoajuda, nem ONG. O Cristo é muito claro: quem quiser me seguir que pegue sua cruz. Eu peguei a minha. Meu lugar não é este mundo. Hoje vivo na esperança de salvar a mim e outras almas para que encontremos nosso lugar no Reino diante dos desígnios desta realidade temporal onde – por inverter a ordem de prioridades – por vezes damos tanta importância ao desimportante. Cristo me fez renascer nessa jornada”.

Em relação ao período pascoal, ele frisou que, para os católicos, ele tem um sentido bem mais amplo do que o que se costuma enxergar. “Somos chamados a compreender – de forma profunda – a Revelação por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo ao firmar a nova aliança. portanto – renascimento, chamamento à conversão diária mais forte, mais profunda. Estamos caminhando com Cristo do deserto aos pés da Cruz para vê-lo em sua vitória final, concretizando a promessa, nos estendendo a mão e dizendo – como em Paulo – que quem tiver de pé, cuide para não cair. Mas se caiu, se arraste à Cruz, pois o perdão te espera... O amor que sinto pela Igreja hoje é indescritível. Quanto mais você se aproxima dela, mais se torna impossível não amá-la”, finalizou.