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Considerado um país laico há mais de 120 anos, o Brasil comemorou, na última segunda-feira (21), o Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa. Entretanto, na prática, a realidade é bastante diferente, pois os brasileiros ainda mostram traços de intolerância por meio de agressões físicas e verbais.

Em entrevista ao Cada Minuto, o professor universitário e estudante de Jornalismo Carlos Spinelli, que vive o candomblé, contou que sua relação com a religião foi amor à primeira vista. “Me identifiquei em 2010, quando participei de uma celebração de algumas entidades. Eu me senti muito a vontade e pude perceber que as ideias da religião em relação ao modo de ser em uma sociedade bateu muito com o que penso e vivo. Em 2017, fiz minha iniciação por completa”, explica.

Motivação religiosa

Questionado sobre o motivo que o fez decidir fazer parte do candomblé, Spinelli relembrou um momento especial da infância. “Eu tenho uma lembrança muito linda da minha bisavó e das ações que ela tomava. Ações que hoje, quando paro pra similar, me remetem às ações que tenho na religião”, contou.

O professor ainda explicou que, além da bisavó, sua Mãe de Santo, conhecida como Rilza de Sabá, também é uma grande motivação dentro do candomblé, sendo um exemplo de força e sabedoria.

Rotina

Assim como as demais religiões, o candomblé também exige uma rotina e dedicação dos que escolheram fazer parte da religião. “É uma rotina bastante simples: eu cuido do meu orixá, participo das celebrações em homenagem às outras divindades, realizo as orações, tudo isso sempre a depender do mês”, informou o estudante.

Preconceito

Mesmo sendo uma prática antiga, as religiões de matriz africana ainda sentem os efeitos do preconceito e discriminação. Longe de qualquer vivência e fundamento, muitas pessoas associam a prática religiosa à rituais de magia negra. Para Carlos, Em Alagoas, as religiões de matriz africana ainda são desvalorizadas e desrespeitadas.

“O século mudou, mas a cabeça das pessoas ainda não. Então, cabe a mim e a todos os meus irmãos de Santo permanecer lutando contra qualquer tipo de preconceito. É uma questão de luta!”, complementa Spinelli.

O professor ainda relembrou um episódio  que ocorreu no estado: a quebra de Xangô. Também conhecido como Dia do Quebra, o caso aconteceu em 1912, na cidade de Maceió, e que foi liderado por veteranos de guerra e políticos. 

No ato violento, praticantes do Xangô tiveram terreiros invadidos, depredados e, até mesmo, queimados. Além disso, os líderes e pais de santo das religiões de matriz africana foram espancados em um ato de intolerância religiosa. Para Carlos, as consequências dessa tragédia duram até hoje, mas fazer parte do candomblé “é uma honra: ao povo do santo e à história”.
“Viver o candomblé é viver e sentir a natureza, as pessoas! É ajudar ao próximo, é o respeito, acima de tudo, ao divino e a história do povo africano”, finalizou Spinelli.

Para Marcelo, que é  professor universitário e Espírita, desde a adolescência a sua relação com a espiritualidade e religiosidade sempre foi muito inquietante. ”Muito adepto a leitura, me reconhecia pouco a pouco numa relação espiritual bastante eclética e com muitas dificuldades para uma relação religiosa diante da tradição familiar que era a católica”, disse ele.

Desde então, ele revela que quase dez anos, após vários estudos e leituras sobre espiritualidade, decidiu seguir a Doutrina Espírita.

“Com o tempo, fui me aquietando com as leituras e estudos sobre espiritualidade e, em especial, aos orientados pelo doutrinador Allan Kardec. Neste momento, quando me decidia pela Doutrina, me encontrava com 25/26 anos”, completou.

Marcelo contou à reportagem que se sentia confortado pelos estudos feitos durante esses anos e que, por meio da religião, ele conheceu muitos outros caminheiros de jornada e intensificou ainda mais a sua espiritualidade.

“O pentateuco da Doutrina Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, o Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gêneses foram os que naquele momento, mais me confortavam. Porém, alguns amigos já apontavam os leituras e me apresentaram outros autores espirituais como: André Luiz, Emannuel, Cornélio Pires, Maria Dolores, dentre outros, com psicografias através de Francisco Xavier, além de outros autores espirituais: Miramez, Hermínio C. Miranda e Bezerra de Meneses. Conheci muitos outros caminheiros de jornada espírita que, ao longo destes anos, fortaleceram não apenas a proposta do estudo, mas também a vivência das orientações apresentadas pelo nosso Mestre Jesus. Estas orientações se firmam com a proposta do burilamento interior pela introjeção da caridade e humildade como agentes basilares de evolução do espírito” esclareceu.

“Assim, hoje, mais intensamente me identifico com esta doutrina que, a cada instante, nos apresenta a oportunidade de evoluir na percepção que, como eternos aprendizes, estamos sempre a apreender, nos desfazendo de valores que em muito dificultam a nossa percepção do que fomos, somos, o que estamos fazendo e para onde poderemos ir. Assim, com estes novos valores, a caminhada se faz mais confortável e ressignificada”, completou.

Família

Após ser questionado se recebeu apoio da família e de amigos após a decisão de se tornar espírita, ele disse que, mesmo os pais sendo católicos, em nenhum momento eles o questionaram.

"Quanto as pessoas que de alguma forma me motivaram a seguir esta doutrina, destaco os meus pais que, mesmo eles seguindo a Igreja Católica, em nenhum momento, colocaram qualquer dificuldade para esta opção. Muito pelo contrário, foi o meu pai, Ruy Costa Souza, que nos idos dos anos de 1970, por curiosidade dele, levou para a nossa casa uma coleção com o Pentateuco Kardequiano, que foi a nossa primeira referência de leitura da doutrina”, justificou Marcelo.

Dia a dia 

“Hoje, tenho uma rotina formal que atende aos dias e horários estabelecidos pelas Casas Espíritas Comunidade Espírita Nosso Lar, localizado na comunidade Sururu de Capote, o Núcleo Redentor Clara de Assis, que atende a comunidade do bairro da Santa Amélia e o Grupo de Estudos da Doutrina Espírita Terra do Sol, formado por alguns moradores do Condomínio Chácaras da Lagoa. Tenho também uma rotina informal, de amparos, sob a solicitação de irmãos mais necessitados, sem dia, hora e local pré-determinado. Estas atividades são partilhadas com as minhas atividades de professor universitário, de esposo, pai, filho, irmão e tio de uma família muito grande”, contou.

Questionado sobre a aceitação da Doutrina e aceitação da religião, Marcelo diz que, em Alagoas, hoje a Doutrina Espírita é bem aceita e não tem vivenciado preconceitos, a ponto de serem aplicados em estatísticas e evidenciarem uma referência deste comportamento.

Punição x intolerância

É importante ressaltar que o preconceito e a intolerância religiosa são considerados crimes no Brasil, passíveis de punição previstas no Código Penal que prevê, no artigo 208, a condenação da discriminação religiosa: ‘Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso é penalizada com detenção de 1 mês a um ano ou multa. Se houver emprego de violência, a pena é aumentada em um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.”

Portanto, em casos de violação do direito à liberdade de crença e convicção, denuncie no Disque Direitos Humanos através do Disque 100. Esse canal conta com um módulo específico para esse tipo de denúncia e é um serviço de atendimento gratuito mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos.

Além disso, as denúncias podem ser feitas em qualquer delegacia ou na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin).

*Estagiárias com supervisão da editoria.