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Os debates sobre desarmamento no Brasil por vezes parecem se assentar em uma guerra retórica cíclica, como um “loop” infinito, no qual os argumentos vão sendo lançados, rebatidos e substituídos. Os defensores das restrições às armas divulgam uma nova tese, quase sempre travestida de estudo, ela é desconstituída por uma análise técnica e, na sequência, substituída por uma nova linha argumentativa, que rapidamente segue o mesmo roteiro. E, não raro, uma tese já tantas vezes desmontada volta com nova roupagem, começando tudo de novo.

Esse ciclo permite observar fenômenos no mínimo curiosos, deixando claro como a narrativa vai se amoldando aos interesses ideológicos de momento, sem compromisso com o que já se disse. Foi exatamente o que ocorreu com a repercussão assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco.

Durante os últimos anos, um dos argumentos mais repetidos pelos adeptos da ideologia antiarmas foi o de que os criminosos se abastecem de armas desviadas do mercado legal. A tese é a de que o cidadão comum que compra uma arma, cedo ou tarde, a terá roubada ou furtada, passando esta a ser usada por criminosos. Para comprovar o que afirmam, dizem que o rastreamento das armas apreendidas com bandidos revelaria a lícita origem remota delas.

A teoria já foi amplamente desconstruída. Ela não se sustenta quando se constata que o rastreamento de armas em nosso país só é feito pelo número de série, o que deixa sem qualquer busca por origem aquelas que não têm essa característica ou que tiveram o número suprimido. Nos livros Articulando em Segurança: contrapontos ao desarmamento civil (Rebelo, 2016) e Mentiram para Mim Sobre o Desarmamento (Quintela e Barbosa, 2015), essa farsa é pormenorizadamente desconstituída.

Talvez nem fosse preciso. Afinal, a pura percepção comum já seria suficientemente para acabar com essa fantasia. Se são fuzis, metralhadoras e pistolas nos calibres 40, 45 e, sobretudo, 9mm o que mais se vê com os criminosos, não é necessário esforço para eliminar a possibilidade de sua origem lícita, pois artefatos com essas características nunca foram comercializados para o cidadão comum.

E há mais: a própria argumentação desarmamentista acaba por desconstruir a tese que defendem.

Após a morte violenta da vereadora Marielle, os analistas vinculados ao espectro progressista, no qual o desarmamento se insere, se apressaram para atribuir a autoria do crime a maus policiais, alvo recorrente de críticas ferrenhas e denúncias da vítima. Nesse processo, culminaram por resgatar um levantamento atribuído ao Instituto Sou da Paz, apontando que a maior parte da munição apreendida com criminosos seria de fabricação nacional e de uso restrito das polícias e Forças Armadas (https://goo.gl/a7qf2x), o que seria um indicativo de que é o desvio delas de tais corporações que abastece o crime.

E é justamente aí que as teses se anulam. Se as munições mais apreendidas com o crime são as de uso restrito, como podem ser as armas originárias do comércio civil comum que abastecem os criminosos? Não podem. Por mais que se tenha apego a ideologias transmutantes, revólveres 38 e pistolas 380 – as únicas acessíveis ao cidadão comum – não conseguem magicamente se transformar em calibres maiores. Isso é um fato.

Assim, com apregoa o adágio, das duas, uma. Ou não são as armas com origem legal que abastecem o crime (hipótese amplamente mais factível), ou não são munições restritas as que mais nele se usa. As duas coisas não podem coexistir. A não ser, claro, que os especialistas de plantão queiram convencer você de que um bandido rouba um revólver 38 do cidadão e atira com ele usando munição 9mm. Seria muito interessante ouvir os desarmamentistas explicarem que tiros são esses.